When I’m 64← Voltar ao projeto

PRIMEIRO REGISTRO · UMA HISTÓRIA PESSOAL

O incômodo
no bolso.

Talvez eu tenha nascido com um incômodo guardado no bolso.

Não sei explicar muito bem. É como se eu tivesse passado a vida caminhando por uma estrada, mas sempre curioso com o que havia dos lados.

Uma árvore diferente, uma paisagem bonita, um caminho que aparecia do nada. Às vezes dava vontade de parar, olhar mais de perto, recolher uns gravetos, descobrir aonde aquilo ia dar.

E lá ia eu.

Nem sempre sabia direito o que estava procurando. Na verdade, acho que na maioria das vezes não sabia. Era só aquela vontade de experimentar alguma coisa nova.

O curioso é que nunca deixei de seguir pela estrada. Tinha trabalho, família, filhos, contas para pagar. A vida acontecendo, como acontece com todo mundo.

Mas o incômodo continuava ali, no bolso. De vez em quando, cutucava.

Lembro de uma época em que trabalhava com tecnologia, cuidando de bancos de dados, e resolvi fazer faculdade de Publicidade e Propaganda.

Nada a ver, né?

Mas a internet estava começando a aparecer, mudando um monte de coisas, e eu fiquei curioso. Queria entender aquele outro mundo.

Acabei me envolvendo tanto que, perto de terminar o curso, participei de uma seleção para trabalhar durante um período em uma grande agência de publicidade, em São Paulo.

Fui escolhido.

Tirei férias do trabalho e passei um mês por lá. Conheci pessoas, vi como as coisas funcionavam, participei daquela rotina completamente diferente da minha.

No final, me convidaram para ficar.

E eu não fiquei.

Tinha um filho pequeno, uma vida organizada, responsabilidades. Mudar de profissão e de cidade naquele momento não era uma decisão simples.

Mas não foi só isso.

Depois de conhecer aquele ambiente por dentro, percebi que, apesar de interessante, talvez não fosse exatamente o lugar onde eu gostaria de construir minha vida profissional.

Voltei para casa sem arrependimento nenhum.

Pelo contrário.

Voltei com uma descoberta que carreguei comigo desde então: eu podia fazer outras coisas. Não precisava ficar limitado àquilo que já sabia fazer.

E foi interessante perceber como aquela experiência, que aparentemente não tinha nada a ver com minha profissão, acabou abrindo minha cabeça para outras possibilidades.

Mais tarde, vieram trabalhos diferentes, experiências de gestão, desafios que eu nem imaginava que poderia enfrentar.

Às vezes a gente só consegue entender a importância de certas escolhas muito tempo depois.

E olha que nem todas as minhas experiências deram certo.

Aliás, se eu fosse contar minha vida apenas pelas conquistas, provavelmente deixaria de fora boa parte das histórias mais interessantes.

Porque sempre fui mais de procurar do que de chegar.

Quando era mais novo, tinha aquela sensação de que podia resolver qualquer coisa. Bastava estudar, trabalhar, insistir.

Era meio assim: deixa comigo que eu resolvo.

Com o tempo, fui descobrindo que não era bem assim.

A gente tem limites. Nem sempre sabe tudo, nem sempre consegue tudo, nem sempre tem razão.

E, quer saber? Acho que uma das melhores descobertas que fiz foi perceber que não preciso resolver tudo sozinho.

Fazer junto pode ser muito mais interessante.

As pessoas trazem outras ideias, outras experiências, outras maneiras de enxergar o mesmo problema. Às vezes, aquilo que parecia impossível sozinho fica bem mais simples quando alguém aparece para caminhar com a gente.

E assim os anos foram passando.

Agora estou chegando aos 64.

Engraçado como a gente imagina essa idade quando é jovem. Parece uma coisa tão distante. Quase outra vida.

Só que, quando chega perto, você percebe que continua sendo você.

Claro que algumas coisas mudaram. O corpo já não responde do mesmo jeito, certas responsabilidades diminuíram, outras continuam. Algumas vontades desapareceram, outras surgiram.

Mas aquele incômodo?

Pois é. Continua aqui.

E tenho a impressão de que ficou até maior.

Hoje me pego pensando que passei tempo demais trabalhando, tentando acompanhar tudo, aprendendo mais uma tecnologia, resolvendo mais um problema.

Não é que eu tenha deixado de gostar dessas coisas. Ainda gosto de aprender e de construir algo útil.

Mas comecei a sentir falta de outras partes da vida.

Quero tocar melhor minha guitarra. Continuar correndo enquanto as pernas deixarem. Conhecer lugares, conversar sobre assuntos que não tenham nada a ver com trabalho, encontrar pessoas interessantes.

Quero experimentar coisas que talvez nem saiba ainda que existem.

E comecei a pensar em quantas pessoas da minha idade, ou mais velhas, também devem ter alguma coisa guardada no bolso.

Talvez um sonho antigo.

Uma vontade que foi ficando para depois.

Uma curiosidade que nunca encontrou oportunidade.

Ou talvez nem saibam mais muito bem o que gostariam de fazer.

Às vezes, tudo o que falta é ouvir uma boa história, conhecer alguém, receber um convite ou descobrir que não precisamos fazer tudo sozinhos.

Foi dessas conversas comigo mesmo que começou a nascer uma ideia.

Chamei de WhenIm64.

O nome veio daquela música dos Beatles que pergunta como será a vida quando chegarmos aos 64 anos.

Não tenho uma resposta pronta.

Na verdade, acho que tenho muito mais perguntas do que respostas.

Mas pensei que poderia ser interessante abrir essa conversa para outras pessoas. Ouvir histórias, contar algumas das minhas, descobrir o que ainda temos vontade de fazer.

Quem sabe uma história não desperta alguma coisa em alguém? Quem sabe duas pessoas não descobrem que gostariam de fazer a mesma coisa? Quem sabe daí não nasce uma amizade, uma experiência, um projeto?

Não sei.

E, por enquanto, está tudo bem não saber.

O WhenIm64 está começando assim. Sem uma grande estrutura, sem um monte de atividades planejadas. Por enquanto, sou só eu, minha curiosidade e a vontade de encontrar outras pessoas pelo caminho.

Talvez daqui a algum tempo sejamos muitos.

Talvez algumas pessoas apareçam, compartilhem suas histórias e sigam suas próprias estradas.

E está tudo bem também.

Afinal, a ideia não é fazer ninguém ficar por aqui. É ajudar a descobrir que ainda existem caminhos para explorar.

Quanto a mim, continuo com aquele incômodo guardado no bolso.

Só que agora, aos 64, tenho mais vontade de olhar para os lados, fazer algumas pausas e aproveitar melhor a companhia de quem encontrar pela estrada.

Ainda não sei aonde tudo isso vai dar.

Mas acho que vai ser interessante descobrir.

Porque ainda há muito por viver.

O que essa história despertou em você? ↗